sábado, 27 de outubro de 2007

Desesperança

Para refletir sobre o grave momento vivido na política do Pará, texto da lavra do competentíssimo Juvêncio Arruda, do blog 5ª Emenda:

"Política do Crime

Leitor do blog, por e.mail, pergunta se vale a pena dar crédito às declarações contidas na carta do marginal Luís Araújo, um dos autores do duplo homicídio dos irmãos Novelino. Outro comentarista lança a mesma dúvida acerca do depoimento do executor Sebastião Cardias, vazado na edição de ontem do Diário do Pará.

É possível que eles estejam mentindo, indagam os leitores? Em tese, sim, pois todo bandido mente, principalmente quando quer salvar a própria pele, embaralhando as investigações.

Nesse caso, só mantendo-os incólumes, a modo de investigar o quanto for necessário, o tempo que for preciso. Até que toda a verdade seja esclarecida.

Escusado dizer, embora nem tanto, que o Estado, mantenedor do Sistema Penal, é o responsável pela vida dos bandidos.

O que é cada vez mais difícil de não acreditar é na presença indiscriminada e abundante em indícios, de eminentes nomes da elite política paraense.

Os bandidos falam muito, os mais inexperientes por medo; há vazamentos das investigações da Operação Rêmora e do próprio inquérito dos irmãos Novelino; o falatório das famílias dos acusados e das vítimas - ao menos um deputado estadual paroara tem a cópia do inquérito que apurou a execução - tudo isso contribui para tornar o clima mais pesado a cada dia que passa.

Tráfico de influência, venda de sentenças, laranjas a frente de empresas de lixo, agiotagem, corrupção em prefeituras, financiamentos ilegais e não declarados de campanhas políticas, são alguns dos crimes atribuídos à quadrilha e sua fauna acompanhante, abertamente comentados nas rodas bem informadas da cidade.

Este poster já ouviu, em offésimo, de assessores diretos de neguinho citado nas paradas, confissões acerca da preocupação com os rumos que o caso tomou.

Alguns dos envolvidos estão à beira de uma colite ulcerativa aguda.

Mentiras a parte, o próprio trânsito do líder visível da quadrilha, Chico Ferreira, afiança a condição melancólica, fétida, irremediávelmente corrupta e altamente perigosa a que chegou a política paroara, valhacouto de enormes associações para o crime, melhor dizendo, para o crime e o discurso.

Imagens do tio Chico com políticos e empresários, em agradáveis passeios, convescotes e visitas, com direito a emoção e carinho, indicam que a quadrilha tinha e tem laços em práticamente todas as legendas; instalou-se em todas as regiões do estado; descortinou uma polícia ineficiente, temerária e corrupta; escancarou uma enorme avenida no TCM; calou a imprensa ou associou-se a ela durante anos a fio.

Fez negócios com meio mundo, e depois das eleições estava inadimplente. A agiotagem trabalha com o curto prazo, mas os negócios públicos, mesmo os escusos, nem tanto.

Começou a escalada da rolagem das dívidas.

Pedia dinheiro emprestado aqui, entregava ali, roubava mais adiante, entregava uma parte prá mais alguém, e por aí foi até o dia em que encontrou pela frente uma cobrança executiva, como se diz na gíria dos esgotos.

Tentou se defender mandando cartas e recados para os beneficiários, só gente importante. Mas já era tarde: Chico não percebeu aquele exato momento em que a política lhe tirava o chão dos pés.

A gota d'agua foi o rompimento do contrato com o IASEP, em meados de março.

Ao receber a notícia, aparentando desespero, Chico teria ameaçado se jogar pela janela do prédio.

Da suposta encenação aos assassinatos, bastaram alguns telefonemas.

A Operação Rêmora foi o ponto de inflexão, na história de Chico Ferreira e de toda uma fornada de políticos paroaras, acelerando a derrocada dos mais velhos, matando no nascedouro a pretensa ficha limpa dos mais novos, deixando os de meia idade pelo meio do caminho, largados na sargeta da sorte. Todos parecidos com Chico, todos filhos de Francisco.

Mentiras a parte, Chico Ferreira talhou a calça que veste essa camarilha da política, dos negócios e da mídia no Pará, curta ao ponto de evidenciar-lhes os glúteos sépticos.

A quadrilha chegou e se instalou, como se vê todo dia mais um pouco, no coração do poder.

Essa constatação, por um lado deprimente, gera um enorme prazer: a certeza de saber que, não muito longe destes dias, todos os detalhes do caso serão içados à tona, feito os cadáveres da dupla de nacionais cruelmente assassinada. Vem mais Chico Ferreira por aí.

É só aguardar."

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É, Juca... Parece que todos se tornaram sepulcros caiados: lindos por fora e cheios de podridão por dentro. A luz no fim do túnel parece ser o trem da Vale, em sentido contrário e carregado de minério.

2 comentários:

Juvencio de Arruda disse...

rsrs...nobre João, é isso mesmo.
Um trem em sentido contrário.
As coisas ainda são difícies por aqui.
Obrigado e um grande abraço.

João Carlos Rodrigues disse...

Um forte abraço, amigo.