O "primeiro-ministro" do governo de Ana Júlia Carepa (PT) deu a entender que as dificuldades do Estado em cumprir a determinação da Justiça estão relacionadas ao fato de haver mulheres e crianças nos assentamentos de sem-terra.
Ora, bolas! Pensei que apenas os invasores [ou ocupantes, como queiram] faziam uso dessa estratégia abominável de colocar crianças e mulheres como escudo, como vimos tantas vezes nas imagens da TV, quando a polícia chegava para desmontar seus acampamentos. Mas vejo que o governo do Estado, que deveria ser o grande juiz e protetor da sociedade, também é capaz de usar a mesma tática condenável, escondendo-se atrás dos pequeninos e debaixo das saias das mulheres ocupantes, para não assumir sua responsabilidade.
É evidente que as ocupações de terra não podem ser tratadas apenas como caso de polícia, pois se trata, efetivamente, de um grave problema social. E é notório que o governo tem razão quanto às grilagens de terras públicas levadas a termo por alguns espertalhões e que estes precisam devolver ao Estado as áreas invadidas.
Não se pode negar, também, que Cláudio Puty tem razão quando diz que as reintegrações precisam ser feitas com todo o cuidado, levando-se em conta os direitos humanos daqueles que serão retirados das terras invadidas. Todavia, não devemos perder de vista que nenhum desses argumentos pode ser usado para adiar indefinidamente o cumprimento dos mandados judiciais. A Justiça, enquanto um dos três poderes constituídos da República, não pode e não deve ser desmoralizada porque o Executivo se mostra incapaz de equacionar as dificuldades das reintegrações em um tempo razoável.
Não é nada razoável, por exemplo, o caso de uma proprietária de Castanhal, mostrada na mesma reportagem que Cláudio Puty, que espera há quatro anos pela devolução de sua fazenda. Ou seja: desde a metade do governo de Simão Jatene (PSDB), a mulher tem em mãos sua vitória na Justiça, mas não consegue ver essa vitória concretizada porque o Estado é incompetente para resolver o problema "das crianças, das mulheres, das famílias," alegado por Puty como impedimento para o cumprimento dos mandados judiciais.
O PT, de alto a baixo, tem se mostrado incompetente para realizar a tão propalada reforma agrária e se nivelou aos governos anteriores, que tanto criticava.
O direito à terra, para o trabalhador rural, é sagrado. Mas o direito à propriedade, para aqueles que desbravaram suas áreas em épocas em que não havia sequer estradas para dar suporte ao seu trabalho [e que têm documentos dessas terras], também precisa ser respeitado. E cabe ao governo, em seus diversos níveis, garantir o equilíbrio entre as duas situações.
Quando a balança do governo pende para qualquer um dos lados [e parece que é exatamente isto que trava o governo do Pará no caso das reintegrações], não pode haver justiça social, tão apregoada pelo Partido dos Trabalhadores antes de chegar ao governo, mas ainda não colocada em prática a favor da população. O Pará precisa, de fato, se tornar "terra de direitos", mas de direitos iguais para os seus cidadãos, com um governo que proteja todos os segmentos sociais, e não apenas aqueles da sua simpatia.
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